America - Daniela Tavares


INTRODUÇÃO


Quando eu era criança minha mãe sempre me dizia que a vida é feita de segredos e mistérios, que às vezes, muitos deles poderiam até machucar, mas quando mantidos em segredo era como uma mascara no rosto da verdade, isso amenizava a dor alheia.


Eu não entendia muito sobre o que de fato ela estava falando, mas eu adorava quando ela me contava histórias cheias de segredos, e no final delas ela sempre me surpreendia com a verdade.


Eu cresci e comecei a compreender que os segredos e mistérios que a vida proporcionava não era como nas histórias de mamãe, era sempre de forma cruel e dolorosa, as pessoas mentiam, vestiam as mascaras para não ferir os demais ao redor, mas hoje em dia, as mascaras já não são tão firmes assim.


CAPÍTULO 1


Um...dois...três.

O apito do juiz soa declarando o final do jogo.

Me pegaram no colo comemorando a vitória, havíamos ganhado para um time que era no mínimo "excelente" aos olhos dos grandes técnicos de futebol americano.

Era nesses momentos que eu mais amava ser o Quarterback, fazer parte de algo que realmente me fazia feliz, poder contribuir para a vitória do meu time e chamar todos de irmãos.

— Abram espaço para Meri – Jamie grita e então me botam no chão, me viro para todos os lados procurando em meio ao campo de futebol por América.

Vejo-a bem a tempo de segura-la em meu colo, ela se joga cruzando as pernas ao redor do meu quadril, seus braços envoltos do meu pescoço e os meus ao redor de sua cintura.

— Parabéns – ela sussurrou com emoção em meu ouvido, causando aquele tão familiar e delicioso arrepio

Seguro-a forte em meus braços dando um beijo em seu ombro, essa noite entraria para a noite mais feliz da minha vida sem sombra de dúvidas.

(...)


—Um brinde à Kellan – Calebe ergueu sua lata de refrigerante.

—Um brinde – todos repetiram em uníssono.

Abri um enorme sorriso levando minha própria lata até os lábios em comemoração. Todos ao redor da grande mesa na pizzaria ao lado do campus estavam em comemoração.

Estávamos na linha de chegada para se formar com honras, apenas mais alguns meses e a vida finalmente começaria.

Observo América ao meu lado brincar com sua azeitona, ela sorria para a carinha feliz que montou em seu próprio prato com os condimentos da pizza que segundos antes ela devorou.

América era basicamente o meu porto segura desde o momento em que a vi, minhas investidas insistentes acabaram vencendo toda a relutância que ela mostrou no inicio.

Foi difícil conquista-la, mas quando aconteceu foi simplesmente magico, éramos declarados o casal exemplo de toda a faculdade, e nossos 4 anos juntos vivendo no campus era só o ponto de partida para o resto de nossas vidas.

Os planos já foram feitos, em poucos meses nos formaríamos, eu iria finalmente assinar o contrato com o time New York Giants, o 4° melhor time de futebol americano da NFL. Enquanto América seguiria carreira na maior das galerias de artes em Nova York como tanto deseja, o Museu de Artes Modernas.

Ali com a ajuda de nossos pais e com as economias que conseguimos juntar compraríamos o nosso primeiro apartamento e viveremos felizes para sempre.

— Eu amo você – falo por impulso de ser domado pelos pensamentos futuros de momentos felizes que teremos.

América ergue o olhar divertido para mim, seu sorriso se abre lentamente antes dela simplesmente se inclinar em minha direção e me dar um beijo romântico e cauteloso ao mesmo tempo.

— Vão para o quarto – Jamie joga uma azeitona em cima de nós.

— Vá se ferrar – revido em tom zombeteiro.

— Preciso fumar – América se levantou e automaticamente me levantei atrás.

Seguimos para fora do restaurante, puxei do meu bolso o nosso isqueiro, um presente meu para América, feito de prata com as iniciais K e A gravados bem a frente em uma letra puxada e bonita.

Acendo o cigarro de América e volto a guarda-lo em meu bolso, eu não fumo, e também pouco me importa se ela fuma, mas apesar de ter dado esse presente a ela, sou eu quem sempre o carrega e quem sempre acende seu cigarro.

— Foi um grande jogo – sorrio ela depois de uma tragada.

— Foi mesmo – concordo segurando a mão livre dela.

— Podemos comemorar hoje – ela sorri maliciosamente. – Lauren não estará no quarto esta noite, ele é todo nosso.

— Adorei isso – abro um enorme sorriso.

(...)


O dia raiou e eu acabei despertando antes do despertador apitar, era assim que as coisas aconteciam quando eu dormia no quarto de América, se os monitores me pegassem eu estaria ferrado.

Visto minhas roupas sem fazer barulho algum, lanço um olhar na direção de América que ainda está a dormir de costas para mim, seu corpo ainda inteiramente nu me chamando para voltar até ali, mas eu realmente precisava ir para meu dormitório.

Me aproximo dela afastando seus cabelos de seu ombro nu, ali deposito um beijo casto e sussurro baixinho.

— Bom dia, te vejo daqui a pouco.

Saio do quarto na pontinha dos pés, ouço passos no corredor ao lado e sei que provavelmente é a monitora Clarisse, ela me odeia e parece sempre estar acordando com o pé esquerdo.

Consigo sair do saguão das meninas sem ser visto, já andando pela rua que liga um prédio ao outro da universidade de Chicago suspiro pesadamente, sentia meu corpo completamente relaxado e satisfeito. América realmente me tirou o folego na noite passada.

Entro na ala dos garotos e muitos dele já estão circulando por ai, alguns passam por mim me cumprimentando com tapinhas camaradas nas costas. Era assim que funcionava sempre que ganhávamos um jogo importante, eu simplesmente amava tudo aquilo.

Entro no quarto e fecho a porta atrás de mim, vejo Calebe deitado de olhos fechados e com um enorme sorriso no rosto.

— Endoidou? – O encaro de sobrancelha arqueada.

Ele abre os olhos gargalhando por ter sido pego no flagra, logo as cobertas começam a se mexer e então Corinne surge entre elas sorrindo igualmente.

— Pensei que ia demorar mais – diz ele ainda sorrindo.

— Nojento – concluo indo até o pequeno banheiro.

— Não vou nem perguntar o que você e América fizeram ontem anoite – Corinne revira os olhos se deitando ao lado de Calebe– também deve ter sido nojento.

— Pode imaginar a vontade – grito do banheiro. – Foi espetacular.

— Ok – Calebe se pronuncia. – Temos aula daqui a uma hora então te vejo depois.

Ouço os dois se beijarem de um jeito melecado me fazendo fazer uma careta na frente do espelho, logo em seguida a porta bate e sei que estamos apenas nós dois.

Tranco a porta do banheiro a fim de tomar uma ducha e me preparar para mais um dia de aula.

(...)


— A senhorita Nancy com certeza me odeia – Jamie sussurra encarando a gororoba em seu prato. – Por que sempre que pego minha comida parece que ela cuspiu aqui?

— Por que talvez ela tenha cuspido – América responde e todos rimos.

— Senhor Tucker? – O Reitor Konavam surge ao meu lado no horário de almoço– podemos conversar um segundo?

Ele se vira e sai tão rapidamente quanto chegou, encaro todos na mesa que se silenciaram com essa visita repentina, o Sr. Konavam nunca convocava um aluno pessoalmente, a não ser que seja em casos graves.

— Vai ver ele só quer te parabenizar pelo jogo de ontem – América diz tentando aliviar o incomodo que se formou em mim repentinamente.

— Talvez – falo me levantando e jogando a mochila por cima do ombro– vejo vocês depois?

— Claro– eles respondem.

Saio do refeitório seguindo em direção da sala do diretor, meus passos são lerdos e receosos, acho pouco provável que ele vá me parabenizar, não pela expressão que carregava, porem não me lembro de ter feito nada de errado.

— Bom dia Katherine – comprimento a assistente do reitor quando chego a sala.

— Olá Kellan – ela me abre um sorriso piedoso, o que só piora meu medo–ele está te esperando.

Abro a porta com cautela enfiando apenas a cabeça para o lado de dentro, o avisto sentado em sua grande mesa.

— Entre Tucker – ele me encoraja a continuar.

Entro em sua enorme sala, uma cópia da sala do presidente na casa branca, bandeirinhas dos Estados Unidos espalhados por todos os cantos, nas paredes quadros de familiares e diplomas decoram, assim como uma enorme prateleira com vários troféus que alunos ganharam durante todo o tempo de funcionamento da faculdade.

— Aconteceu alguma coisa? – pergunto de uma vez encarando sua postura ereta na cadeira.

Konavam primeiro me encara fixamente como se tentasse detectar algo errado em mim, depois se vira lentamente e abre uma de suas gavetas.

— Isso aqui é familiar para você? – ele põe sobre a mesa o meu isqueiro, o mesmo que sempre uso para acender o cigarro de América.

— Onde conseguiu isso? – Pergunto batendo as mãos no bolso e constatando que não estava mesmo onde deveria estar.

— Isso é seu? – Insiste ele.

— Mas é claro que sim – confirmo. – Isso deveria estar no meu bolso.

— É, mas ao invés de estar no seu bolso ele estava em minha sala pela manhã.

— O que quer dizer? – Pergunto confuso.

— Kellan – ele se inclina sobre a mesa pousando as mãos sobre ela. – Ontem a noite alguém invadiu minha sala e roubou praticamente todo o dinheiro arrecadado pelo time de futebol, tem noção de quanto dinheiro é?

Nego rapidamente, estava começando a sentir uma dor de cabeça se aproximar.

— Foi cerca de 278 mil dólares – ele responde. – Isso é bastante dinheiro.

— O senhor está achando que fui eu? – Pergunto incrédulo.

— Não estou te acusando Kellan – ele suspira. – A policia já está investigando tudo, as câmeras de segurança dessa área foram todas desligadas, e seu isqueiro foi encontrado aqui.

— Eu não tive nada a ver com isso – nego rapidamente. – Esse isqueiro estava no bolso da minha calça ontem anoite, não faço a mínima ideia de como ele veio parar aqui.

— Eu quero que entenda que essa situação é muito delicada, não estou acusando você como já disse, mas você está suspenso do time até descobrirmos o que realmente aconteceu.

Meu coração falhou algumas batidas, minha respiração se tornou ofegante de repente, eu não poderia ser suspenso, eu precisava estar no time, o ultimo jogo era em um mês e era o jogo mais importante, o jogo que o olheiro da New York Giants viria para me ver jogar e trazer o tão sonhado contrato.

— Não pode fazer isso – falo em um tom mais desesperado.

— Já fizemos – ele mantem a expressão séria– precisamos descobrir o que aconteceu e precisamos desse dinheiro de volta, até lá está suspenso do time e também não poderá sair do campus, seus pais já foram contactados.

— Diga que é um pesadelo – cubro o rosto com as mãos.

— Sinto muito Kellan.

Com essas ultimas palavras Konavam me dispensa da sala, saio dali arrastando um pé atrás do outro, me sentia derrotado e impotente. Eu não havia roubado nada, precisava provar minha inocência, precisava voltar para o time, não posso correr o risco de perder meu futuro com América em Nova York.

Eu estava fodido.



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